Como se comunica num ambiente de cancro?

O doutoramento de Joana Wilton, investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), engloba dois campos diferentes da biologia (regulação genética e microambiente do cancro). O objectivo é perceber como células do sistema imunitário (macrófagos) mudam a sua expressão genética ao comunicar com células de cancro do cólon, e quais as implicações desta comunicação.

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O cancro já não é apenas um conjunto de células alteradas a proliferarem, mas é, hoje, visto como um microambiente onde as interações entre os elementos celulares e moleculares que o compõem são fundamentais na progressão do tumor.

Antes de qualquer outra coisa, um cancro quer um ambiente especial, pois as células tumorais são imprescindíveis para a iniciação e progressão neoplásica, mas são incapazes de fazê-lo sozinhas. Elas precisam de um repertório variado de células não-tumorais, como os fibroblastos, macrófagos e as células endoteliais, que são recrutadas de sítios próximos e/ou distantes para constituir o microambiente tumoral.

Estas células recrutadas, juntamente com a matriz extracelular, são capazes de constituir  as principais características do cancro, como a falha na vigilância imunológica, a activação da angiogénese (formação de novos vasos sanguíneos), a invasão e metástase, além de dar apoio à resistência terapêutica. Portanto, a compreensão do papel do ambiente tumoral e da sua comunicação com as células neoplásicas pode levar à identificação de alvos na terapia anti-neoplásica.

Em suma, o microambiente tumoral é um conjunto de diferentes factores celulares e físico-químicos, tais como células do sistema imunológico, arquitectura angiogénica e matriz extracelular, que influenciam directa e indirectamente em vários aspectos patológicos, incluindo a resposta aos tratamentos farmacológicos.

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Joana Wilton estuda tudo isto, mas foca-se num aspecto particular: “sabe-se muito pouco sobre que modificações ocorrem no RNA para que os macrófagos comuniquem mais ou menos com as células do cancro”, informa. Por isso, o doutoramento desta bioquímica resulta de “um casamento feliz” de dois campos da Biologia: o microambiente de cancro e a regulação génica, começou por dizer a oradora do segundo PubhD Porto, no passado dia 23 de Fevereiro, que teve lugar no bar Pinguim.

Existem vários níveis de regulação na expressão génica no que toca ao início da transcrição (síntese do RNA molécula intermediária na síntese de proteínas), processamento e estabilidade dos RNAs mensageiros (mRNA), síntese proteica (iniciação e alongamento) e, finalmente, também ao nível do processamento da proteína e das suas modificações pós-traducionais (acetilações, glutaminações, fosforilações, glicinações, etc) e ao nível da sua estabilidade. Tudo isto é especialmente importante quando falamos de cancro.

A oradora focou a sua apresentação numa etapa importante da maturação do precursor do mRNA: a poliadenilação (adição de uma sequência de adenosinas) e que é importante por vários motivos: ajuda na transcrição do mRNA, protege regiões importantes do mRNA, ajuda no transporte do mRNA para o citoplasma, e também é relevante durante a tradução. A importância da poliadenilação é que se julga que esta aumente a estabilidade da molécula mRNA, nos eucariotas.

Outro aspecto focado por Joana Wilton foram as tais células imunitárias importantes para este microambiente do cancro: os macrófagos, que a investigadora dividiu em pré-infalamatórios e anti-inflamatórios. Estes últimos parecem ser mais tolerantes às células cancerígenas, refere a investigadora, ressalvando que o trabalho laboratorial do seu doutoramento iniciou-se apenas em Outubro de 2016. Tudo parece sugerir que os macrófagos “resistem mais tempo a um ambiente desfavorável”, explicou a doutoranda orientada por Alexandra Moreira e Maria José Oliveira, investigadoras no i3S.

 

 

 

 

 

As galáxias preferem ambientes com…poucas galáxias

Por que é que esta galáxia existe?  Por que é que esta galáxia existe com esta forma? Como é a vida de uma galáxia e o que determina a sua existência e morte? Estas são algumas das perguntas que, desde sempre, apaixonam Ana Afonso, oradora do último PubhD Porto, que teve lugar no dia 23 de Fevereiro, no Pinguim Café.

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Como se nos contasse uma história de embalar, a astrónoma explica-nos que, a partir de 1920, começou-se a perceber que haviam diversos tipos de galáxias [Galáxia é um conjunto de estrelas, de gás, de poeiras e de matéria escura]. Existem as galáxias irregulares, como a Grande Nuvem de Magalhães; as galáxias elípticas, como a Leo I; e as espirais, como a galáxia Andrómeda ou a nossa Via Láctea. Ana Afonso explica-nos que se consegue perceber a morfologia das galáxias em função dos seus elementos químicos.

Outros eventos históricos foram importantes para o conhecimento das galáxias, como a Guerra fria e a evolução da tecnologia militar que permitiu a utilização de telescópios no espaço. Mas, não se podendo ver uma galáxia, é possível simular modelos. E é também nisso que Ana Afonso trabalha. Curiosamente, a cientista focou uma parte da sua apresentação nos erros a evitar quando se tem uma galáxia como objecto de estudo. E, claro, “o primeiro cuidado a ter é conseguir uma amostra representativa de galáxias semelhante à nossa galáxia”, refere Ana Afonso. Em segundo lugar, é preciso atender à orientação das galáxias e perceber como estas evoluem. Actualmente, sabe-se que as galáxias nascem nas regiões de maior condensação da matéria escura, sendo a distribuição destas condensações aleatória.dsc03651

Ana Afonso contou-nos ainda que em regiões mais densas, a galáxia morre antes de chegar à zona densa, apesar de toda a interacção entre galáxias. A astrónoma avançou ainda algumas das conclusões a que tem chegado com a sua investigação, como a de que o ambiente preferencial para a nossa galáxia é um ambiente sem muitas galáxias.

“Façam parte deste enorme trabalho que é descobrir coisas novas”, incentivou a oradora.

A astrónoma Ana Afonso foi também uma revelação enquanto comunicadora de ciência cativando o público com o seu entusiasmo pela sua área e pela Ciência em geral. “A Ciência tem que ser o mais democrática possível”, referiu.  “Em Astronomia, beneficiamos imenso da colaboração uns com os outros porque numa mesma observação uns vêem o que escapou a outros por terem outro foco de pesquisa”.

A investigadora trabalha, actualmente, no levantamento do maior cluster (aglomerado) de galáxias que existe no hemisfério norte e sul.

 

Ana Afonso no PubhD Porto

Dizem que tudo nasce, cresce e morre. Será que as galáxias também? E qual é o segredo de longevidade dessas imensas galáxias?

A Ana Paulino Afonso, licenciada em Astronomia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, está precisamente a fazer um doutoramento com o objectivo geral de compreender como é que galáxias como a nossa conseguiram “sobreviver” no espaço e no tempo.

A Ana Paulino Afonso trabalhou em diversos centros de investigação ligados à Astronomia e Astrofísica dos quais se destacam o Laboratório de Astrofísica de Marselha, a Universidade de Leiden, a Universidade de Lancaster, e o Telescópio Isaac Newton e agora podemos encontrá-la no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (Lisboa e Porto).

Venham conhecê-la e ao que elas nos vai contar sobre os segredos da vida das galáxias!

23 Fevereiro | 21h30 | Pinguim Café

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Oncobiologia no 2º PubhD Porto

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Melhorar formas de detectar cancro o mais cedo possível e prevenir a metastização são dois dos maiores desafios na área da investigação em oncobiologia. A área de investigação da Joana Wilton vai ao encontro desses desafios. Como?

O seu projecto de doutoramento engloba dois campos diferentes da biologia (regulação genética e microambiente do cancro) e visa perceber como células do sistema imunitário (macrófagos) mudam a sua expressão genética ao comunicar com células de cancro do cólon, e quais as implicações desta comunicação.

A Joana é licenciada em Bioquímica e mestre em Biotecnologia pela Faculdade de Ciência e Tecnologia-Universidade Nova de Lisboa. Em 2016, iniciou o seu doutoramento no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), no âmbito do programa doutoral GABBA, um dos programas doutorais mais antigos e bem sucedidos em Portugal.