Cancro, Tecnologia da Imagem e Astrofísica no 3º PubhD Porto

PubhD Porto destaca o papel da tecnologia desde a prevenção do cancro à prestação de cuidados de saúde personalizados, passando pela detecção de planetas fora do sistema solar.  Tudo isto num bar. 

Como manter as pessoas motivadas para a mudança de comportamento? Esta é uma das questões chave que se tenta compreender no doutoramento de Nuno Ribeiro, investigador no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) e doutorando em Multimédia e Educação na Universidade de Aveiro (UA). Como referido na sua apresentação no último PubhD Porto, no passado dia 30 de Março, no bar Pinguim, mais de metade dos casos de cancro são devido a opções comportamentais como o consumo de tabaco e álcool e a exposição à radiação ultravioleta. Por isso, não se pode falar em prevenção de cancro sem equacionar a questão problemática da mudança comportamental. O grande desafio é, pois, “como induzir a mudança de comportamento?” Nuno Ribeiro está a testar se as tecnologias móveis podem ou não ser um meio para promover essas mudanças de comportamento. Para isso desenvolveu uma aplicação para telemóvel que envia mensagens personalizadas aos utilizadores com o objectivo de induzir pequenas mudanças comportamentais que, de modo incremental, possam contribuir para a redução do risco pessoal de cancro. A Happy , “Health Awareness and Prevention Personalized for You” ou, em português “prevenção personalizada para si”, é o nome completo desta ferramenta que monitoriza o comportamento, sugere desafios saudáveis e dá a possibilidade de se ligar a outros utilizadores para partilha de resultados. Parte-se do pressuposto de que as atitudes de mudança podem ser lembretes e é isso que a aplicação faz: lembra coisas simples que o utilizador pode fazer para monitorar a sua saúde através da prevenção. Por exemplo, fazer um auto-exame à pele de 3 em 3 meses. As recomendações disponibilizadas pela aplicação baseiam-se em vários factores relacionados com o utilizador, com a informação que o utilizador dá sobre os seus comportamentos e com a localização geo-espacial do telemóvel. Nuno Ribeiro explica que, por exemplo, “se a pessoa estiver na praia durante o dia irá receber mensagens para se proteger do sol; se estiver no supermercado, a Happy vai sugerir-lhe comprar frutas e vegetais frescos”.

IMG_0506.JPG
Nuno Ribeiro

Por outro lado, lembrou o investigador, já na fase de interacção com o público que contava com 40 pessoas, há que considerar não apenas a mudança individual, mas também os factores ambientais. E deu o exemplo da corrida que, há 10 anos, era considerada uma actividade de uns poucos, mas que agora se tornou uma moda que arrasta multidões. “Não temos a noção do quão influenciáveis somos e nem sequer o admitimos”, conclui Nuno Ribeiro.

Imagens como montanhas

Bruno Ribeiro, Doutor em Cosmologia e Astrofísica pela Universidade Aix-Marseille, falou sobre a natureza e processamento das imagens em cosmologia e como esse conhecimento é útil para resolver outros problemas do nosso quotidiano, como, por exemplo, um idoso saber quando deve ou não tomar a sua medicação. Desde 2013, o trabalho de  Bruno Ribeiro tem estado intimamente ligado ao estudo da evolução das galáxias com muita formação estelar. Porém, fruto da sua paixão pelos computadores, programação e, sobretudo, pelo processamento de imagem, nos últimos meses o cientista abraçou um projecto na área da computação gráfica “uma vez que a forma como olhamos para os mais distantes objectos celestes não é em nada diferente da que necessitamos para resolver certos problemas tecnológicos que nos permitem melhorar a nossa vida e a dos que nos rodeia”. Assim, o trabalho de Bruno Ribeiro passa agora por reconhecer padrões que possam depois melhorar gadgets tecnológicos, como smartphones, tablets, smartwatches, dotando-os de capacidades para apoiar na prestação de cuidados de saúde domiciliários. “Para mim uma imagem é como uma montanha, o nível mais alto é também o mais brilhante e o mais baixo é o menos brilhante”, compara Bruno Ribeiro, definindo a imagem como o número de partículas em cada posição.

BRUNO
Bruno Ribeiro

A velocidade das estrelas

Provavelmente conhecem o Pedro Figueira como sendo um dos cientistas portugueses que fez parte da equipa que descobriu planeta rochoso extrassolar mais próximo da Terra, já que ele participou nas observações do planeta, o HD 219134b, e da sua estrela, bem como no desenvolvimento dos “programas de computador utilizados para analisar os dados” recolhidos a partir de dois telescópios, “de modo a obter informações mais precisas”.

pedro
Pedro Figueira

Quem esteve no último PubhD Porto teve a oportunidade de conhecer outras facetas deste astrofísico: a sua vivacidade, o sorriso e o grande à vontade para falar do que gosta. Com já 30 artigos publicados em revistas científicas de referência no campo da Astrofísica, Pedro Figueira falou sobre como se podem detectar planetas ao olhar para as estrelas, uma das linhas de investigação mais populares e com maior actividade na Astronomia.  Quando se mede a velocidade de uma estrela percebe-se se há algo que interrompa as ondas que se formam consoante uma estrela de afasta ou aproxima. Claro que muitos factores podem ser essa interrupção, mas se esta ocorre d forma sistemática e prolongada, pode tratar-se de um planeta. Actualmente, conhecem-se cerca  mais de 700 planetas, na sua maioria em sistemas com apenas um planeta. Mas existem também vários sistemas multiplanetários identificados.

Ora, Pedro Figueira explicou os principais métodos que se usam para o estudo de exoplanetas. A maioria dos planetas conhecidos foram descobertos através do método das velocidades radiais que consite, grosso modo, na medição da oscilação da velocidade radial de uma estrela, ou seja, da velocidade da estrela na nossa linha de visão, causada pela presença de um ou mais planetas em torno dessa mesma estrela. Contudo, este método dá poucas pistas sobre a constituição do planeta, sobre a sua densidade ou até mesmo sobre o raio do planeta. Por essa razão, entra em jogo o segundo método de que nos falou Pedro Figueira: o método dos trânsitos planetários se torna uma ferramenta crucial para o estudo de planetas extra-solares, pois permite estimar modelos da estrutura interna desses planetas. Uma das coisas que Pedro Figueira estudou na sua tese foi a aplicação desse método dos trânsitos no espectro dos infravermelhos, uma vez que já foi amplamente usado no espectro visível.

Advertisements

As galáxias preferem ambientes com…poucas galáxias

Por que é que esta galáxia existe?  Por que é que esta galáxia existe com esta forma? Como é a vida de uma galáxia e o que determina a sua existência e morte? Estas são algumas das perguntas que, desde sempre, apaixonam Ana Afonso, oradora do último PubhD Porto, que teve lugar no dia 23 de Fevereiro, no Pinguim Café.

dsc03655

Como se nos contasse uma história de embalar, a astrónoma explica-nos que, a partir de 1920, começou-se a perceber que haviam diversos tipos de galáxias [Galáxia é um conjunto de estrelas, de gás, de poeiras e de matéria escura]. Existem as galáxias irregulares, como a Grande Nuvem de Magalhães; as galáxias elípticas, como a Leo I; e as espirais, como a galáxia Andrómeda ou a nossa Via Láctea. Ana Afonso explica-nos que se consegue perceber a morfologia das galáxias em função dos seus elementos químicos.

Outros eventos históricos foram importantes para o conhecimento das galáxias, como a Guerra fria e a evolução da tecnologia militar que permitiu a utilização de telescópios no espaço. Mas, não se podendo ver uma galáxia, é possível simular modelos. E é também nisso que Ana Afonso trabalha. Curiosamente, a cientista focou uma parte da sua apresentação nos erros a evitar quando se tem uma galáxia como objecto de estudo. E, claro, “o primeiro cuidado a ter é conseguir uma amostra representativa de galáxias semelhante à nossa galáxia”, refere Ana Afonso. Em segundo lugar, é preciso atender à orientação das galáxias e perceber como estas evoluem. Actualmente, sabe-se que as galáxias nascem nas regiões de maior condensação da matéria escura, sendo a distribuição destas condensações aleatória.dsc03651

Ana Afonso contou-nos ainda que em regiões mais densas, a galáxia morre antes de chegar à zona densa, apesar de toda a interacção entre galáxias. A astrónoma avançou ainda algumas das conclusões a que tem chegado com a sua investigação, como a de que o ambiente preferencial para a nossa galáxia é um ambiente sem muitas galáxias.

“Façam parte deste enorme trabalho que é descobrir coisas novas”, incentivou a oradora.

A astrónoma Ana Afonso foi também uma revelação enquanto comunicadora de ciência cativando o público com o seu entusiasmo pela sua área e pela Ciência em geral. “A Ciência tem que ser o mais democrática possível”, referiu.  “Em Astronomia, beneficiamos imenso da colaboração uns com os outros porque numa mesma observação uns vêem o que escapou a outros por terem outro foco de pesquisa”.

A investigadora trabalha, actualmente, no levantamento do maior cluster (aglomerado) de galáxias que existe no hemisfério norte e sul.

 

Ana Afonso no PubhD Porto

Dizem que tudo nasce, cresce e morre. Será que as galáxias também? E qual é o segredo de longevidade dessas imensas galáxias?

A Ana Paulino Afonso, licenciada em Astronomia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, está precisamente a fazer um doutoramento com o objectivo geral de compreender como é que galáxias como a nossa conseguiram “sobreviver” no espaço e no tempo.

A Ana Paulino Afonso trabalhou em diversos centros de investigação ligados à Astronomia e Astrofísica dos quais se destacam o Laboratório de Astrofísica de Marselha, a Universidade de Leiden, a Universidade de Lancaster, e o Telescópio Isaac Newton e agora podemos encontrá-la no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (Lisboa e Porto).

Venham conhecê-la e ao que elas nos vai contar sobre os segredos da vida das galáxias!

23 Fevereiro | 21h30 | Pinguim Café

ana-afonso

1º PubhD Porto: o rescaldo

Liliana Abreu, doutoranda na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) em Saúde Pública e investigadora na Unidade de Comunicação de Ciência do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), começou por falar do conceito multidimensional de literacia em contexto de saúde, cuja grande fragilidade assenta na forma como essa mesma literacia pode ser medida. Normalmente, só se consegue medir a primeira dimensão do conceito: a capacidade de reconheer termos médicos. Mas, como notou a investigadora, reconhecer não é o mesmo que entender sobretudo num tempo em que ainda é muito limitado o conhecimento que existe sobre a forma como a informação sobre doenças é apropriada pelas pessoas, bem como a forma como estas a usam, ou mesmo, como combinam as diferentes fontes de informação a que recorrem. Em traços gerais, a pergunta que Liliana Abreu tenta responder com a sua tese é: como é que as pessoas fazem a gestão da sua doença? Para isso, ela fez entrevistas em centros de cuidados de saúde primários,  tentando analisar quais as fontes de informação mais comuns através das narrativas da doença. Estas narrativas são depois categorizadas de acordop1060975 com o nível de impacto da doença na vida do doente. Na sua apresentação, Liliana Abreu destacou uma das conclusões do seu trabalho que aponta para a importância das redes de mediação como factor preponderante para a capacidade da pessoa em gerir a sua doença.

A riqueza do conhecimento

“Esqueci-me e depois lembrei-me”. A frase é de Iris Breda, investigadora do Instituto de Astrofísica e Ciências Espaciais, ao responder a um dos presentes que queria saber por que razão tinha ela mudado de Engenharia do Ambiente para Astronomia. Desde criança que esta jovem cientista tem a paixão pelo estudo do universo, mas essa paixão estava como que adormecida e despertou já durante a sua licenciatura. Iris falou sobre os diferentes tipos de galáxias, destacando as elípticas e espirais (ela trabalha com p1060989estas últimas). O seu trabalho ajuda a compreender por que é que existem tantos tipos diferentes de galáxias. Iris Breda acredita que a imensa diversidade de galáxias que se observa tem mais a ver com os diferentes estados evolutivos destas do que propriamente com a existência de diferentes galáxias. Iris Breda referiu ainda que a sua incursão na Astronomia, para além de um grande investimento pessoal em estudo, deve-se também a uma “curiosidade insaciável”, pois “a nossa maior riqueza é o conhecimento”.

Mariana Barbosa, mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade Católica e doutoranda na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e no i3S, falou-nos sobre o seu trabalho que consiste no desenvolvimento de revestimentos naturais para próteses, visando a prevenção de infecções bacterianas nos implantes.  A Engenharia dos tecidos e a medicina regenerativa são áreas que sempre a fascinaram, pelo que “surgiu como opção natural continuar em investigação e prosseguir para doutoramento, pois ansiava desenvolver e aprofundar conhecimentos que permitam a partip1060995cipação em projetos com impacto científico e social”, nas palavras de Mariana Barbosa. Como notou um dos presentes, o trabalho da Mariana assume particular relevâcia, pois a colocação de uma segunda prótese é uma situação sempre bastante complexa e problemática para o doente e que deve ser evitada a todo o custo.

E foi assim a estreia do PubhD Porto que contou com a participação de três mulheres de ciência e com mais de 40 participantes na audiência. O próximo PubhD será a 23 de Fevereiro e contará, mais uma vez, com grande diversidade de temas, desde a Bioquímica à História.