Da violência e seu contrário: da História à Ciência

“O desafio que nos espera mais não é do que assegurar a sobrevivência da humanidade”. A frase é de M. Gorbatchev e poderia muito bem resumir a última sessão do PubhD Porto, que teve lugar no passado dia 23 de Fevereiro, no bar Pinguim. A sobrevivência à violência exercida sobre e pelas mulheres, a sobrevivência ao cancro e os desafios que isso implica em termos de investigação científica e a sobrevivência das galáxias num universo muito populado foram temas que atravessaram as três apresentações.

Mas foi a Paula Coelho, doutoranda em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e professora na Escola Secundária de Paços de Ferreira, que mais especificamente abordou o tema da violência. Falou-nos sobre os diferentes tipos de agressões de que as mulheres foram vítimas durante o século XX, tendo-se focado no período entre 1928 e 1934, na cidade do Porto. Entre esses tipos, a oradora realçou as agressões, as violações, o envenenamento e o desfloramento (violação de uma mulher que nunca havia tido relações sexuais). Ficámos a saber que essas agressões ocorriam essencialmente na rua, casa e cafés. Porém, uma das partes mais importantes da investigação de Paula Coelho refere-se à contextualização dessa violência, tendo a docente sublinhado a importância da alcoolização como causa preponderante dos episódios de violência. Na apresentação deste doutoramento, a oradora realçou ainda os tipos de fontes, essencialmente o arquivo do Instituto de Medicina Legal, a que recorre para fazer a sua pesquisa: relatórios directos,relatórios de sanidade, relatórios da polícia de instrução criminal.

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Paula Coelho

Um tema como este, que nos confronta com a realidade, muitas vezes velada, das comunidades em que nos inserimos, levantou obviamente duas questões: se são esperadas algumas surpresas desta investigação e, sobretudo, se aprendemos alguma coisa destas descrições. E um dos pontos de vista é que não podemos tirar conclusões precipitadas. Por exemplo, um projecto de investigação da Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, liderado por Adela Campostrini, analisa las lógicas de organização e acção de grupos de jovens de Rosario em contextos sociais de violência urbana. Para a equipa foi ponto de partida alhear-se da perspectiva que diz que os jovens são simplesmente violentos, privilegiando uma abordagem que os trate como uma chave dinâmica de interacção de lógicas de organização e de acção que superam o nível de um território ou grupo etário.

Também o neurocientista Sam Harris considera que “o século XX foi palco de horrores sem precedentes. Mas as pessoas que vivem no mundo desenvolvido sentem-se cada vez mais alarmadas pela capacidade que temos de fazer mal uns aos outros”, escreve.  Ainda assim, o neurocientista diz-se optimista quanto ao progresso moral, ainda que muitos estejam enganados quanto ao que é certo ou errado.

No último PubhD Porto percebeu-se que, seja na sociedade, seja dentro do cólon, ou numa galáxia existem sim interacções lógicas de organização, de acção, de ataque, de defesa, mas acima de tudo existe uma certa ordem que acaba por fazer sentido quando ampliamos a visão do fenómeno para o seu todo.

Os bioquímicos estão interessados, por exemplo, nos mecanismos de funcionamento do cérebro, multiplicação celular e diferenciação, comunicação dentro e entre as células e órgãos e as bases químicas da hereditariedade e da doença. O bioquímico estuda moléculas específicas, tais como as proteínas e os ácidos nucleicos, dando particular ênfase na regulação das reacções químicas nas células vivas, ou seja, no que pode decifrar a ordem no caos aparente.

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Ilustração do livro Micromegas de  Voltaire.

Já Kafka acreditava que olhamos para a vida pelo buraco de fechadura estreito da nossa existência pessoal e para que possamos distinguir entre aparência e realidade, “devemos manter o buraco da fechadura sempre limpo”. E é também esse o papel da Ciência e da investigação científica.

A ver, como exemplo:

Ed Yong: Suicidal wasps, zombie roaches and other parasite tales

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